Tem erros que não se apagam com corretivo, curativo e nem com tempo. Tem dor que não se cura, que não se engana com comprimidos e que só alivia quando a gente se alimenta dela.Tem ferida que não fecha, não cicatriza com pomada, que inflama e infecciona com o tempo. Quatro anos. Quatro anos é muito tempo? Eu lembro dessa pergunta em “Paris, Texas”. Quando os irmãos Walt e Travis estão voltando pra casa, no meio do deserto, parados esperando o trem passar, à beira de uma ferrovia, Travis fica sabendo que seu filho irá fazer oito anos e que ele esteve ausente nos últimos quatro. Então ele pergunta: “Quatro anos é muito tempo?”. “Para um garotinho de oito é. É metade da vida dele!”, responde Walt. Quatro anos é muito tempo para um garotinho de oito anos. E pra dois sujeitos com mais de quarenta? Pra dois sujeitos que nunca se viram e se alimentaram das mesmas dores nos últimos quatro anos. Quatro anos e um encontro improvável. Um final imprevisível. O abandono, a dor, a solidão, o tempo, o perdão. Tudo ali em menos de uma hora. Dois sujeitos de um talento sem igual. Um texto que te faz rir pra no segundo seguinte enfiar a espingarda na tua fuça e te perguntar “tá rindo do quê?”. Os dois sujeitos são os amigos Mário Bortolotto e Nelsinho Peres. O texto é do amigo, poeta e agora dramaturgo Sérgio Mello, o Sam Shepard dos trópicos, acho que essa definição é do Marião! “Aos ossos que tanto doem no inverno” mexe com essas dores que não têm cura e mesmo que não fiquem expostas juntam mosquitos, inflamam e infeccionam. Quatro anos no inverno é muito tempo e embora a solidão não escolha idade fica mais doída aos ossos com o passar dos anos, com a vida se encaminhando para os quarenta e cinco do segundo tempo e você já não sabe se torce para uma prorrogação ou quer que tudo termine ali mesmo no apito final do tempo normal.
Ah, não bastasse isso ainda tem a direção. Aprendi com o Bortolotto que o bom diretor e a boa direção são aquelas que não se evidenciam, aquelas que são feitas de sutilezas e não de grandes “invenções”. O teatro é feito de atores e texto. O diretor é fundamental e importante na concepção do trabalho, mas não precisa aparecer mais do que os elementos principais. E a direção do espetáculo é sob medida e de responsabilidade de Soledad Yunge, que soube explorar o talento e recursos dos atores e do texto, sem querer aparecer mais por isso e ainda soube expor a sensibilidade, que muito provavelmente só uma mulher poderia fazer, que o texto aborda sem cair no clichê e no piegas. Algo raro nos dias de hoje.
Após muito tempo sem ter passar por aqui resolvi dar as caras para trazer algo de útil aos poucos leitores desse blog. Dia desses o xarope do Bortolotto fez uma reclamação pública em seu blog se queixando de que não havia comparecido na reunião do grupo e ele tinha levado umas fitas VHS para eu copiar para o DVD. Dias depois, com toda a delicadeza peculiar do senhor aqui já citado, ele me encontrou nos Parlapatões com um “caloroso” tapa em minhas costas e com as tais fitas. Demorei, mas enfim começo agora brindar o grande público com cenas, reportagens e imagens dos 26 anos de carreira desse “simpaticíssimo” senhor. Por favor, algumas reportagens não primam pela qualidade da imagem já que são fitas que existem a mais de duas décadas e só pelo fato delas ainda rodarem já é de se louvar. E pra encerrar contenham o riso, sim meus amigos, esse aí embaixo é Mário Bortolotto com seus vinte e poucos anos!
Detalhe: prestem atenção na edição da reportagem: fantástico! Isso sim é jornalismo sério! Isso sim são anos 80!
E nesse ano também retorna às telas o segundo longa de Arquivo X. Uma das melhores séries da TV nos anos 90. Mulder e Scully juntos novamente. O melhor é que o roteiro e a direção ficam por conta de Chris Carter, o criador da série. Algumas cenas lembram o filme “Independence Day”, e tenho a impressão que vi Bill Pullman no trailer disponível na web. Será que Carter teve a sacada de mantê-lo como presidente do EUA? Se isso se confirmar, puta azar do cara! Agora é esperar o segundo semestre.
Olhos inchados. Uma noite mal dormida e os pedaços todos jogados pelo chão. Papéis picados... contas à pagar.... cacos de vidro.... um filme pela metade no velho videocassete e a sensação de não pertencer a esse lugar. De não pertencer a lugar nenhum. Meias contorcidas no pé e o pijama amassado. Copos de café pela metade servindo apenas para amortecer as cinzas do Marlboro Light. Tentativa frustrada de parar de fumar. Cadeiras vagas. Solidão que se explica pelo cão que saiu pra mijar e não voltou, recados na caixa postal que não mais se acumulam, os amigos que nunca foram muitos e que agora se contam nos dedos de apenas uma das mãos. Abandono total. Vazio de um ano que se encerrou. Promessas de um ano novo. Os mesmos velhos problemas assombrando pelos cantos da casa e a estranha sensação de que a vida nada mais é do que eternas reprises da sessão da tarde.
“Oh, sim, eu estou tão cansado Mas não pra dizer Que eu tô indo embora Talvez eu volte Um dia eu volto Mas eu quero esquecê-la, eu preciso Oh, minha grande Ah, minha pequena Oh, minha grande obsessão”
A primeira vez que ouvi “Vapor Barato” foi na cena final do filme “Terra Estrangeira”, doWlater Salles. O carro seguindo pela rodovia deserta e a Fernanda Torres cantando para o Fernando Alves Pinto. Puta filme! Puta Cena! Eu acho uma das letras mais bonitas que eu conheço, e também o melhor filme do Walter Salles.
Foi muito bom voltar. Foi uma temporada de readaptação (afinal, oito anos e pouco nada mais são do que aproximadamente 3.000 dias!!!!), mas extremamente gratificante. Muito obrigado Marião, Fernanda, Gabriel, Marcelo, Batata, Mariana, Fabiana, Gustavo, Dani, Carol pela confiança e pelo apoio. Foi realmente ótimo tê-los ao lado. Dia 12 de janeiro a gente volta..... se Deus quiser e acredito que não tem porque ele não querer.
Cocoonings
Texto: Mário Bortolotto Direção: Gabriel Pinheiro Elenco: Alessandro "Robocop" Bartel, Walter "Batata" Figueiredo, Gustavo Brandão, Mariana Leme e Fabiana Vajman. Iluminação e Sonoplastia: Marcelo Montenegro Produção executiva: Daniella Angelotti Fotos: Edson Kumasaka
Teatro Ruth Escobar, 209 Bela Vista Sala Mirian Muniz
Hoje às 21h00 Amanhã às 20h00 Ingressos: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (estudante ou com a apresentação da filipeta) R$ 8,00 (comprando pela APETESP)
E agora essa chuva. Essa garoa refrescando um pouco o calor insuportável dos últimos dias. E eu tava deitado, lendo Bukowski e me lembrei de um texto recente do Bortolotto sobre ser triste e a possibilidade da escolha. De poder escolher de que lado da janela ficar. Que chova o dia inteiro então!